Bordando Memórias.



Há tempos andava devendo a você esta história. Ela diz muito sobre como cheguei até aqui - hoje sou uma aconselhadora biográfica. Aos 5 anos de idade, minha família viveu uma experiência que, embora seja um fato natural da existência, ainda é muito difícil para qualquer um: a morte. 

Minha irmã, Luciana, de 4 anos faleceu subitamente de doença estranha que ficou diagnosticada como meningite ou uma provável encefalite. O fato é que esta criança era uma menininha muito luminosa e cheia de alegria e amor para oferecer ao mundo. Mas durou só quatro anos sua experiência entre nós. Meus pais ficaram sem lugar e uma enorme tristeza sombria se abateu sobre este meu núcleo familiar. 

Três  dias depois, eu apresentava os mesmos sintomas. E, claro, fui capturada para o hospital que, nas suas ações emergenciais, acabam esquecendo que estão lidando com pessoas. E tudo é feito de forma insensível. Ainda não haviam me contado da morte da Saninha, como eu a chamava... Pois estava eu, naquele dia, com o meu mais lindo e querido vestido. Um vestido em A, com um corte diagonal, vermelho e azul, curtinho. Saninha tinha o seu. Aonde no meu era azul, o dela vermelho. Já na cama do hospital, com soro, tubos e coisas que me prendiam ali, chegou a hora do banho, de me limparem. O enfermeiro - que na minha memória era enorme -, com sua tesoura também enorme, se aproximou de mim e começou a cortar  o meu amado vestido, para me vestir com uma daquelas roupas próprias do hospital. Tirou de mim já rasgando para abri-lo mais e facilitar a retirada. Embolou tudo e jogou em um cesto cheio de outros panos sujos. E lá se foi o meu vestido! Passei 11 dias ali, sofrendo muito pois, apesar de apresentar os sintomas da doença misteriosa com intensidade, meus exames e o meu sangue não acusavam nada. E eu muito dodói … Virei observação de médicos e psicólogos que nos anos 60, no Brasil, no interior de Minas Gerais, ainda não dominavam a tal da somatização. Tornei-me objeto de pesquisa. Sai do hospital ainda muito machucada pelas tantas agulhadas que levei. 

Fiquei então sabendo pelos meus pais que Luciana agora era uma estrela, luminosa no céu (por isso amo tanto a Estrela Dalva, a mais brilhante que pude encontrar…) Passei a infância sem poder falar na irmã, imposição de um pai dolorido e que na sua boa intenção, achava que estava nos protegendo, nós, suas agora 4 mulheres. Pois esta experiência, ao longo da vida, foi virando uma ferida, um suporte, uma bengala, uma desculpa.  Na minha inconsciência do evento - bloqueamos nossas memórias mais doloridas - fui seguindo meu caminho, passando pelas mais diversas e muitas experiências. Era como se procurasse algo e não havia encontrado. Muito mais tarde veio o amor, vieram os filhos, a construção e busca de algo, de um espaço, do outro. 

Aprendi muito com meu novo núcleo familiar, esta minha pequena família hoje de quatro. Mas sou inquieta e gosto de pesquisar, de buscar a compreensão daquilo que me incomoda e que está no mais escuro cantinho. Na minha formação de estudos biográficos, fui trabalhando a lapidação e a compreensão de tantos eventos na vida. Mas a vida é real e de viés e de cilada em cilada, finalmente consegui compreender uma delas, talvez das  mais importantes que a vida me ofereceu:  a menina ferida com seu vestido cortado e jogado fora. A perda da irmã querida e companheira. O silêncio do luto não realizado. Transformar estas dores e sombras em experiências da vida, compreendidas e revividas,  acabou virando ferramenta para meu trabalho. 


Estava eu justamente me formando e tinha que apresentar e realizar o meu projeto/estágio. E ele virou então o “Meu Vestido”*. Agora refeito, e doado ao mundo em forma de vestidos biográficos.


(*) Falo um pouco deste projeto neste post.







"It's the end of fashion as we know it" says Li Edelkoort

Sempre lutei, quando ainda na minha loja/atelier Pássaro Achado, em não trabalhar a moda, estações, coleções e lançamentos. Me esforcei para afirmar o que sempre quis e faço. Roupas. Costura. Nesta entrevista com Edelkoort, ela diz exatamente isso. Eu a respeito muito. E ela é linda!
"... Este é o fim da moda como a conhecemos. Moda com um grande M não existe mais. E talvez isso não seja um problema; talvez seja realmente um bom momento para repensar. Na verdade, o retorno da alta costura, o que eu estou prevendo, poderia nos trazer uma série de novos conceitos, de como lidar com a idéia de roupa..."

Veja a matéria completa na De Zeen Magazine clicando aqui.




Minhas notícias


Queridas e queridos, 
Saudações!
Aqui estou, depois de um longo ano de pausa, reflexões, experimentos colocando à prova as habilidades adquiridas... retornando. De lá prá cá, muita água passou debaixo desta ponte e ainda com o eco do seu burburinho neste movimento, escrevo para contar para vocês um pouco do que se passou e por onde ando agora.
Como começar esta mensagem? Fui aos posts antigos do blog e reconheci neles uma consciência que eu já tinha sobre o que seriam os meus então próximos passos, aqueles que me trouxeram de março/abril de 2013 a  maio de 2014. Resolvi então começar... de onde parei.
Postado em março de 2013 sob o título "Novas Paisagens"(clique para ver no blog Pássaro Achado): "As águas de Março vão fechando o verão (por vezes mui furiosamente, sacudindo convicções) e enquanto isso o Pássaro Achado se prepara para novas paisagens e vai se despedindo da Vila Madalena... A pequena casinha na Rua Girassol que nos acolheu tão gostosamente nos últimos dois anos, já não cabe muito no que nos tornamos, no que pretendemos ser. Com carinho, ela vai deixar de ser a Casa Pássaro - e esta vai se materializar em outro lugar, tão gostoso quanto (ou mais, esperamos). (...)  Na terra ou nas nuvens".
As chuvas vieram torrenciais naquele ano. Lavaram tudo e trouxeram o novo. E, como no post acima, sacudiram o que ainda estava confuso. Uma decisão estava tomada, mas eu ainda não tinha uma compreensão exata do que significaria. O encerramento daquela Casa Pássaro foi precioso, cheio de gratidão e com um lindo presente para a comunidade da Vila Madalena e para minhas queridas clientes: a ocupação "Casa Vazia", de Selma Perez.
Postado em nossa página no Facebook em 18 de abril de 2013 (clique para ver no facebook.com/passaroachado):
Entre tecidos, esquecida no tempo, a máquina de costura, objeto do ofício, do não esquecimento, da memória que ainda não foi. Casa Vazia, de Selma Perez. Ocupação Casa Pássaro.
E no blog, no post "Casa Vazia", ficou o registro: "Todo mundo carrega uma casa vazia, a casa da infância, a casa que ficou para trás".
Abril chegou com seus ventos frios e um novo ciclo se iniciava finalmente.  Eu me retirei daquele espaço que carinhosamente chamamos de Casa Pássaro pelos últimos dois anos. Embora com um grande aperto no coração, no fundo - confesso - havia um alívio. Afinal ser criadora, designer, empresária, vendedora, realizadora, estava demasiado pesado para mim em meu pequeno ateliê, numa época e em um mundo sacudido por uma grande crise. Vez ou outra, leio e releio o que deixei escrito no blog como despedida, num post que já no seu título declarava:  "Com Amor". Era uma dedicatória para o futuro:

"Às minhas queridas clientes, meus queridos vizinhos,  aos que passaram pela Casa Pássaro,  para uma compra, uma boa conversa, um chá quentinho no inverno, gelado no verão, canjica no dia de São João, minhas costureiras queridas, modelistas, Zézinho cortador mais que perfeito, amigos conselheiros,  de toda hora, que vieram comigo, que vão comigo, Elaine querida, Rogério, Sofia e Lourenço, meu núcleo seguro; minha gratidão por todos estes dias passados nesta casa tão acolhedora. Daqui parto com o coração cheio de gratidão.  E levo comigo belos momentos, lembranças, imagens. Pequenos passarinhos no meu ninho ... Que vão novamente alçar voos em outras céus, montanhas, terras, mares ... ".

Enquanto isso... uma história seguia paralela.
Em janeiro de 2013 eu encerrava a minha formação em Aconselhamento Biográfico. Por quatro anos, me dediquei a aprender este processo terapêutico de apoio ao indivíduo em situações de crise nos seus relacionamentos, no âmbito profissional ou na saúde, que são consideradas do ponto de vista das leis biográficas.
Durante um aconselhamento biográfico você revê a sua vida e esta vivência imaginativa - diferentemente da mera recordação -  intensifica o conhecimento de si até o ponto onde você consegue captar a dinâmica de sua própria história, suas experiências, sua existência, percebendo-se como um ser em processos de crescimento, de evolução. 
Sabia que não teria condições de exercer este trabalho tão cedo:  atelier+loja consumia todo o meu tempo. Mas sabia também, que queria unir estas duas habilidades: biografia+costura
Voltando ao meu retorno do atelier da  Vila Madalena para o do Alto da Boa Vista,  deixei tudo trancado por alguns dias, fiquei “digerindo” os acontecimentos. Ainda com a alma cheia com a instalação de Selma Perez, me dei o tempo necessário.  Quinze dias depois, abri as portas e as janelas, olhei ao redor e comecei a projetar como colocaria tudo dentro das minhas possibilidades, em seus lugares e como seriam estes lugares. Lá no meu espaço no Alto da Boa Vista, reservei um cantinho para os atendimentos biográficos, enquanto montava um novo atelier.
Dois dias depois, encontro minha futura primeira cliente que, olho no olho, me escolheu para fazer o seu biográfico. Com este chamado, não pude ter um segundo de vacilo. Pedi uma semana e coloquei-me a organizar animadamente meu espaço.
Vinte dias depois do fechamento do atelier/loja na Vila Madalena, estava eu com meu Pássaro em seu novo ninho, gestando seus filhotes ...
De lá para cá atendi várias outras pessoas, exercitando meus conhecimentos, aprendendo com todos eles, olhando para suas histórias (todas lindas), e podendo ajudar cada um a apropriar-se de suas próprias vidas.
Comecei a recordar o quanto foi importante aquele contato no provador da Casa Pássaro, com cada cliente, seus corpos, suas buscas, percebendo o quanto é difícil para todos nós lidarmos com o mundo a  nos dizer o que devemos usar, ser, como comportar ... De certa forma, foram pequenos insights biográficos com minhas clientes, através do diálogo sobre seus corpos, seus gostos, ajudando-as a ver o belo, o verdadeiro que reside em cada um.  Comecei a perceber também este limite que há entre o corpo e o mundo, a roupa. Esta “fronteira” que nos trás tantos sentimentos. A roupa com que nos apresentamos ao mundo. Seja ela de qual natureza for: simples, cool, clássica, fashion, moderna, vintage, do tipo "não ligo prá nada", esportiva, todas nos dizem algo sobre nós mesmos para o outro que está diante de nós.
Fui fazendo várias ligações, dando sentido ao vir a ser deste novo Pássaro. Eu mesma, uma mulher grande, sempre tive dificuldades de achar as roupas que me agradavam. Através desta dificuldade, aos 16 anos comecei a costurar. Me libertei! Fazíamos eu e minhas irmãs, roupas fantásticas que  nos deixavam “diferentes” e traziam muita personalidade e força para enfrentar, na adolescência, todas as dificuldades próprias desta época. Aqui, roupa como escudo.
Inquieta, queria unir a costura, os vestidos, ao biográfico. E como todo trabalho biográfico é acompanhado de um trabalho artístico, comecei a amadurecer uma vontade já antiga de realizar o projeto ...
... Meu Vestido
Escrevi um pouco sobre isso,  fiz um projeto piloto e apresentei a uma amiga que trabalha na Associação Comunitária Monte Azul que adorou e quis realizar o trabalho com suas “cuidadoras”, pessoas que trabalham na Associação e que têm acesso a workshops para a conquista de auto conhecimento, contato com a arte, com o fazer com as mãos, com o belo, com seu próprio corpo, seus sentimentos e desejos. Foi assim que iniciei com seis mulheres fascinantes o primeiro esboço do  Meu Vestido - os vestidos biográficos.

Um trabalho intenso, de uma beleza indescritível, em que cada uma pode dedicar-se à sua biografia e nela encontrar elementos para construir o seu vestido único, aquele que é criado inspirado em sua própria vida! Com um carinho imenso, quero apresentar para vocês os resultados deste projeto piloto: vestidos-esculturas, vestidos-telas, vestidos-livros. E até vestidos para usar. Cada um muito particular e único, criado e produzido do início ao fim por cada participante deste primeiro workshop.
- Nestas imagens os primeiros resultados do "Meu Vestido", oficina realizada na primavera de 2013 na Associação Comunitária Monte Azul -
O processo foi maravilhoso: poder escutar cada história, olhar para elas amorosamente, acolher cada dor, alegria, ferida, memórias guardadas e não compartilhadas, defesas adquiridas a partir destas experiências/memórias que nos levam para a vida. Às vezes elas nos impedem e até imobilizam, porque não queremos enfrentá-las ou porque não temos consciência delas pois nossa defesa foi... esquecê-las. Mas se transformadas,  podem se tornar ferramentas de trabalho, de vida, como é o meu caso. 

Mas isto é uma história que um dia contarei: como cheguei aqui, aos 50 anos, passando por tantos caminhos, buscando o meu lugar que só foi revelado quando olhei para a dor de uma menininha, lá no passado,  com seus  5 anos e o seu vestido mais querido!

Prometi que daria notícias. Aí estão. Aqui estou.

Abraços carinhosos,


Adriana Franca


Memória e esquecimento


   



Estas são algumas das imagens da ocupação da Casa Pássaro. Casa Vazia de Selma Perez. Até dia 28 de abril, das 14:00 as 20:00. De terça a domingo. Belas imagens, boa reflexão acerca da memória, do esquecimento, dos vestígios encontrados/deixados em uma casa vazia.



Casa Vazia....................


Todo mundo 
carrega uma
casa vazia,
a casa da
infância, a
casa que ficou 
para trás.

O Pássaro Achado levantou vôo da Vila Madalena, mas quero deixar um presente para aquele lugar, para todos os que cruzaram conosco de alguma forma naquela singela casa da Vila Madalena,  a que chamamos carinhosamente pelos últimos dois anos de Casa Pássaro. Convido a todos para a ocupação daquele canto na Rua Girassol com a "CASA VAZIA" de Selma Perez, obra composta por uma videoinstalação e fotografias.

Abertura: dia 10 de abril às 18 hs.
Exposição: de 11 a 28 de abril, das 14 às 20 hs (de terça a domingo)
Rua Girassol, 174, Vila Madalena (mapa)

- “Casa Vazia traz uma reflexão sobre a memória – que nos faz historicamente vivos –, e o que acontece quando ela nos falta. É uma metáfora do Mal de Alzheimer, demência cujo processo evolutivo é o esvaziamento da pessoa, que vai perdendo as referências pessoais à medida que o cérebro vai se apagando. Os reflexos da própria existência conduzem a narrativa da instalação, levando o espectador a tecer sua visão do tempo indelével para todos. As questões que se põem, neste caso, são: de que forma foi essa passagem do tempo? O que ficou para trás nessa casa outrora habitada por uma família como outra qualquer? O que restou na memória de cada um que ali viveu e o que se apagou? Ao contar uma história muito pessoal, as imagens da casa vazia fornecem instrumentos para que cada um elabore e construa suas próprias perguntas sobre a natureza do tempo, como pensá-lo, como senti-lo, como simplesmente deixá-lo passar".  (Selma Perez)

Conheça mais sobre a Casa Vazia clicando aqui.





Selma Perez é formada em jornalismo, área na qual atuou durante seis anos, escrevendo reportagens e textos para revistas diversas. Ingressou no audiovisual no ano 2000 e desde então trabalha como montadora e roteirista de cinema e vídeo, principalmente de documentários, tendo dirigido também programas para a TV. Montou, entre outros, “Mar de Dentro”, de Paschoal Samora; “O Bom Retiro é o Mundo”, de André Klotzel; “O homem Centenário”, de Andrea Pasquini; “De dentro da Sua Paisagem”, de Tatiana Villela e “Nº 193”, de Thelma Vilas Boas. Em 2011, publicou o livro de contos “Quem Dera Ter Tempo” e atualmente se dedica também à fotografia e à pesquisa artística. 


Com amor ....








Às minhas queridas clientes, meus queridos vizinhos,  aos que passaram pela Casa Pássaro,  para uma compra, uma boa conversa, um chá quentinho no inverno, gelado no verão, canjica no dia de São João, minhas costureiras queridas, modelistas, Zézinho cortador mais que perfeito, amigos conselheiros,  de toda hora, que vieram comigo, que vão comigo, Elaine querida, Rogério, Sofia e Lourenço, meu núcleo seguro; minha gratidão por todos estes dias passados nesta casa tão acolhedora. Daqui parto com o coração cheio de gratidão.  E levo comigo belos momentos, lembranças, imagens. Pequenos passarinhos no meu ninho ... Que vão novamente alçar voos em outras céus, montanhas, terras, mares ... 

Último dia!



Voar até a mais alta árvore
Sem medo, tranqüilo, iluminado
Cantando o que quer dizer
Perguntando o que quer dizer
Que quer dizer meu cantar
Que quer dizer meu cantar

(Caetano Veloso)


Neste sábado, o Pássaro Achado levanta vôo da Vila Madalena. Vamos nos despedir?



Boa Páscoa !










    quarto motivo da rosa 

não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.

eu deixo aroma até nos meus espinhos

ao longe, o vento vai falando de mim.
e por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

cecília meireles